O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

A caçada

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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O Alfredo cacarejou, como sempre fazia no mesmo horário. O chefe sempre levava o galo, dizia que era para dar sorte. O sol apareceu no horizonte. Eu sabia que aquele dia era o Dia, com D maiúsculo, pois teria que provar meu valor. Pela ameaça da noite anterior, se não provasse que sabia caçar, teria o mesmo fim que meu irmão Raquítico, isso mesmo, Raquítico, como todo mundo chamava o tio de vocês. De certa forma, ele se conformava com o apelido, afinal o mais velho de nós era chamado de Conhaque. Aquela turma sempre foi assim, metida a humorista.

Fui o primeiro a levantar no acampamento. Aproveitei para fazer um bom alongamento, conforme havia aprendido com meu velho pai, que me ensinou todos os truques para uma boa caçada, que hoje passo a vocês, prestem atenção. Mas, naquele dia o avô de vocês não estava mais ali, tinha morrido no ano anterior. Eu sentia muita falta dele, em especial das camperiadas que fazíamos todo final de tarde. Sentia que teria que fazer bonito para que o nome da nossa família não caísse em desgraça. Meu velho sempre me contou das grandes caçadas que nossos antepassados protagonizaram.

Como eram boas aquelas noites no galpão, sentados ao lado da fogueira, ouvindo o avô de vocês descrever de forma vívida e épica as histórias de nossos ascendentes. Dos meus 12 irmãos, sabia que era o preferido, afinal, era o único que acreditava em suas narrativas.

O segundo a levantar foi o exibido do Carreteiro. Eu odiava quando ele conseguia uma caça e eu não. Ele fazia questão de jogar isso na minha cara. Não sei quando ele ficou assim. Éramos grandes amigos na juventude.

Dei um bom dia seco. Ele soltou uma farpa rindo, disse que aquele dia seria muito bom, pois seria sua consagração. Que ódio. Aquilo só me motivou ainda mais.

Os outros levantaram. O café foi reforçado. Eram as sobras do churrasco da noite. Todos falavam sem parar das conquistas do dia anterior. Faziam questão de dar a melhor parte da picanha para o Carreteiro e davam tapinhas na cabeça dele. Que raiva me dava aquele sorriso debochado.

Lembrei-me das palavras de meu pai que o segredo era a concentração. Não poderia me deixar distrair. Só que essas paisagens do pampa sempre me encantaram. Só observar o pôr do sol aqui no sul, me bastava. Nunca me canso de admirar os quero-queros e o amor que eles têm por seus filhos, é como o meu por vocês.

Fez um lindo dia. O céu se mostrava nu e azul. A algazarra das cigarras já tinha recomeçado, prevendo um dia significativo para todos. Eu gosto muito, aqui no pampa é quando o tempo está para chuva. O cheiro do verde, é inigualável. Esse sim, um verdadeiro perfume. O pai de vocês sempre foi muito bom com cheiros e odores. Mas, eu confesso, modéstia às favas quer era muito bom, mas muito bom mesmo numa carreira, ninguém me ganhava por aquelas bandas. E sabia que tinha que usar isso a meu favor. Não aguentaria mais uma gargalhada cínica do Carreteiro.

O Pedrão era o que mais trabalhava, terminou de desmontar o acampamento e jogou terra por cima das brasas que ainda restavam no toco de eucalipto. Ele sempre dizia, com voz entonada e ar de seriedade, natural dos negros velhos, que deveríamos prezar muito pela natureza e nunca desperdiçar nada. Lembrem-se sempre disso. Valorizem o que vocês têm aqui nesses pagos e sejam humildes.

Depois de todos prontos, os cavalos encilhados e montados, fomos devagarito em direção à várzea. Prevendo minha determinação o Carreteiro saiu na minha frente. Começaria ali um duelo, que inspiraria o avô de vocês, se ele estivesse vivo.

Agora vão dormir, a mãe de vocês já está me olhando atravessado. Amanhã termino a história. Mas antes, como a Lua está cheia, vocês sabem o que devemos fazer antes de deitar?

A matilha respondeu em uníssono: - sim, vamos uivar!

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