O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

A carreta de contas de marfim

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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Em 1840, o medo era dos gaúchos contrabandistas, que vinham do Uruguai em busca de gados e outras maldades, e dos índios selvagens que não se deixavam catequizar, e quem em sabe até de onças, que vagavam por estas paragens.

Estavam acostumados àquelas jornadas de doze horas em cima de uma carreta, ao passo lerdo dos bois, e pouco se incomodavam. Os dois padres conheciam bem o caminho, que parecia não ter fim. Um arremedo de estrada, pouco mais que uma trilha, que se alongava pela planura da pampa a perder de vista. Encontravam muitos capões de espinilho, ponteando o pastiçal infinito. Em alguns lugares, era inebriante o perfume da macela do reino. Água havia em abundância. Eram arroios, sangas, banhados e vertentes, que saciavam a sede dos homens e dos animais. De tempo em tempo, encontravam um aglomerado de angicos, de sombra ampla e fresca, que servia de paradouro. Aproveitavam para tirar os bois da canga e, ainda ajoujados, deixá-los pastando, atados à carreta por uma soga.

O padre mais velho, o gordo, era quem dava as ordens. O mais gurizote só obedecia e amaldiçoava tudo que tinha que fazer. Nessas paradas, aproveitavam para atender aos clamores da natureza, esticar as pernas e massagear a bunda porque, apesar dos pelegos, o assento de madeira era muito duro.

A missão que cumpriam era muito simples, mas delicada: levar três barris de vinho de Jerez de la Frontera, que tinham vindo da província de Misiones pelo povoado de São Francisco de Borja até o vilarejo de Santana Velha. A ordem era clara. Um barril seria entregue no posto fiscal como coima e os outros dois vendidos no acampamento militar. Esperavam que rendesse uma boa quantia, uns dois contos de réis por barril.

Mas o item de maior valor estava oculto sob algumas bolsas de mandioca. Um baú, repleto de contas de marfim vindas da Europa e que seria entregue a um comerciante local que se encarregaria de contrabandeá-lo para o lado argentino, onde já tinha comprador certo. Valia muito, mas muito mais que o vinho. A recomendação era que os dois homens de Deus defendessem a mercadoria com suas vidas.

Depois de uma noite bem dormida, estirados nos pelegos colocados sob a mesa da carreta, o gordo cutucou com força o outro, mandando que encangasse os bois e os colocasse no cabeçalho. O magricela levantou a contragosto e resmungando sempre, ergueu a sotaina, aliviou-se num pé de caraguatá e foi cumprir o mandado.

O sol da manhã encontrou-os começando a parte mais perigosa da viagem, onde o caminho bordeava um perau alto e empedrado. Ia o mais jovem conduzindo os bois, espicaçando-os com o aguilhão, enquanto o gordo, aboletado no assento, lia seu breviário.

Uma garça branca passou voando e o condutor da carreta perdeu-se na lembrança de umas pernas tão brancas quanto a garça, que tinham ficado num passado difícil de esquecer.

Seu advento foi interrompido por um grito do outro padre. Uma das rodas subiu uma pedra, e a carreta inclinou-se perigosamente para a borda do perau. O padre, com uma agilidade surpreendente para alguém tão gordo, saltou ao solo, enquanto os barris e o baú deslizavam para o lado e se chocavam contra os fueiros, fazendo tombar a carreta.

No instante seguinte, bois, baús, barris e a carreta rodopiavam e saltavam no choque com as pedra até o fundo do perau, coberto pelo arvoredo. Uma onda de líquido cor de rubi se precipitou encosta abaixo, levando consigo milhares de contas brancas, espalhando-as pelas gretas das pedras.

Vieram os dois padres correndo, arregaçando as batinas e chamando o nome de todos os santos. O paredão a pique desestimulou-os de continuar. Sentaram-se desconsolados, pensando no muito que teriam de andar e no pouco que tinha para comer.

Uma chuva muito forte entranhou ainda mais as contas nas pedras e a enxurrada cobriu de terra as que tinham ido para no fundo do perau. Uma semana depois, uma expedição de clérigos pouco conseguiu resgatar e lá ficaram as contas.

Contada de boca em boca, a peripécia virou lenda e dizem que ainda hoje, quem escarafunchar bastante o solo, encontrará algumas das tantas perdidas.

Em tempo: atualmente há uma estância denominada Estância das Contas, por aquelas bandas.

 

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