O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

As meias

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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O coração já começara a disparar. Seu olhar não desgrudava do relógio de parede, daqueles que tem um cuco e um pêndulo que, preguiçosamente, fazia o tic-tac. Seu olhar só desviava para namorar os quadros com as fotos em preto e branco que registravam a época de ouro da radionovela, que era transmitida ao vido do teatro municipal. Sempre em primeiro plano, nos retratos, a sua patroa, a atriz, no auge da juventude. Enquanto divagava em como deveria ter sido glamorosa a vida nos anos 60, um frio na barriga começava a surgir. Ela sabia que o horário mais esperado do dia estava chegando.  Seus pelos se arrepiaram quando a sua patroa lhe chamou.

- Querida, pode vir.

Ela tentava fingir ser o mais natural possível. Às vezes, até achava que sua patroa gostava daquele ritual que realizavam juntas. Entrou no quarto, fingindo desinteresse. O perfume que sentiu apoderou-se dela. A temperatura de seu corpo subiu, sentiu arrepios na nuca e seu rosto ficou vermelho, tal qual sucedia quando o marido, bêbado lhe sussurrava galanteios indecentes ao ouvido. 

Mas, nada se comparava àquele momento. Uma simples empregada, sem estudos e criada no interior, ajudava a que outrora fora uma grande atriz do rádio e dos primórdios da TV brasileira.

- Me ajude, querida, com as meias.

A única decepção era que sua patroa nunca a chamava pelo nome, embora tivessem o mesmo nome, uma homenagem que seus pais fizeram àquela que viria ser a sua inspiração. Mas, chamá-la de querida já era o suficiente, permitia a ela fantasiar que eram amigas íntimas, que trocavam confidências e amenidades, de como elas manipulavam os homens com seus charmes. Uma de suas fantasias recorrentes era, como uma roteirista, criar diálogos possíveis que poderia ter com a famosa mulher.

Ela percebeu que sua patroa estava mais radiante do que nunca naquela manhã. Até preferiu vestir a meia vermelha, para combinar com o batom escarlate. Surgiu uma ponta de ciúmes, afinal, porque todo esse exagero, pensava.

Voltou a se concentrar em sua função, que era para ela o que mais lhe dava prazer. Enrolou a meia e aproximou-se muito devagar do pé de sua musa. Tocou seu pé, sente que estão levemente quentes, e por um instante ela sente seu corpo se encher de excitação, que valia qualquer esforço e humilhação que sofria, como doméstica. Até se justificava repetindo para si mesma que uma pessoa idosa é rabugenta por natureza. Então, toda e qualquer mágoa que tinha sumia naquele instante em que estava de joelhos colocando aquelas meias nos pés de sua idolatrada. Seu instante de êxtase sempre era quebrado com as palavras da velha atriz.

- Apressa com isso, querida, já estou sentindo frio.

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