O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

Bicicleta nova

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

Compartilhe esta página com seus amigos

 

Dois veículos novos chegaram à cidade naquela manhã. A Veraneio da polícia e a bicicleta tinindo de nova do Chico.

Ele estava tão ansioso que nem conseguiu dormir à noite. Carregando sua cesta, ele caminhava de um lado a outro na plataforma da estação do trem.

Só parou quando ouviu ao longe o barulho da locomotiva. Quando o trem parou ele foi direto ao vagão de cargas. Os raios da bicicleta brilhavam, não mais que o sorriso de seu dono. Depois de muitos anos economizando Chico pôde comprar sua tão sonhada bicicleta.

Era uma Monark, azul desmaiado, com refletor vermelho na traseira, as duas molas deixavam o selim macio, as manoplas vinham com vincos que evitavam que a mão escapasse e de cada lado do guidão prateado saíam várias tiras coloridas que só aumentavam o sentimento de festa no coração do proprietário. O bagageiro era bem como ele precisava: grande e reforçado.

Um gaiato que trabalhava descarregando encomendas brincou:

- Acertou na loteria, Chico?

Ele nem ouvia, já estava acostumado com esse tipo de pessoa, que fica se importando com a vida dos outros em vez de cuidarem da deles.

Levou empurrando a bicicleta até à praça em frente à estação. Procurou uma sombra e ajeitou a cesta com todo cuidado no bagageiro. O dia estava perfeito e completo, pensou. Subiu na magrela e saiu pedalando com a destreza de sempre. Havia aprendido a pedalar ainda guri, pelas estradas cheias de pedra da Vila Itapitocai. Agora adulto, todos os dias, antes do sol nascer ele aproveitava para vender pão d’água, com a bicicleta cargueira emprestada de seu pai, que trabalhava nos Correios e Telégrafos.

Mas, àquela manhã era diferente das outras. Não estava preocupado em se apressar. Vinha aproveitando o vento no rosto, descendo a Presidente Vargas, só no embalo, sem as mãos no guidão, como gostava de se exibir. Estava mais confiante do que nunca, afinal o breque era uma novidade. Segundo o vendedor, o freio tambor nunca falhava. A cada pedalada aumentava um tanto sua autoestima.

Chico foi direto à padaria do seu Darde, famoso na cidade por causa das bolachas que fazia. Ele não conseguia disfarçar a felicidade. Hoje ele tinha decidido que faria um trajeto maior só para poder exibir sua conquista. Entrou na padaria dono de si. Chamou o padeiro, a atendente e o Darde para verem sua nova aquisição. Quando saiu na calçada para mostrar seu veículo, seu sorriso se transformou em indignação.

- Qual foi o engraçadinho que escondeu a minha bicicleta? Isso é o tipo de barateza que se faça? Cadê minha bicicleta? Que brincadeira de mau gosto – gritava.

Começou a brigar com todos ali. Até que um cliente da padaria que vinha chegando disse que o Zeca Urubu passou por ele com uma bicicleta bem novinha. Vinha tão rápido que quase o atropelou. O Urubu era conhecido por sua ficha corrida de pequenos furtos.

Chico caiu em desespero. Alguém já deveria ter dado cabo nesse gatuno, gritou.

Uma mulher comentou que o surrupiador morava pelas bandas do Jóquei. Ele decidiu que iria atrás, mas o povo reunido em volta dele o desmotivou, dizendo que era muito perigoso entrar na vila sozinho. Incentivaram ele a dar parte na polícia. Foi o que fez.

- Você viu o meliante? – perguntou o inspetor.

- Eu não vi, mas tem uma testemunha que viu o Zeca Urubu passar com a bicicleta correndo.

- Esse indivíduo já é conhecido aqui na delegacia. Vamos pegar a viatura e ir atrás dele. Você vem conosco para fazer o reconhecimento da bicicleta.

O inspetor achou uma ótima oportunidade para usar o recém-recebido camburão. Era uma Veraneio, câmbio com marcha sincronizada, quatro portas, da metade para baixo era pintada de preto e a metade de cima era branca.

Quando o delegado ficou sabendo que iriam usar a viatura resolveu ir junto e mandou chamar o fotógrafo do jornal para registrar a primeira vez que iriam usar o presente recebido do governo militar. Por onde passavam era uma sensação. Todos viravam para ver a tão falada camionete da polícia.

Chegaram à vila do Zeca, um dos moradores disse que ele esteve lá sim com a bicicleta tentando vender, e como não conseguiu disse que iria tentar na Marduque. Lá disseram que ele foi à COHAB, que por sua vez, indicaram que ele tinha saído para ir na Tarrago. O resultado foi que andaram por todos os cantos perigosos de Uruguaiana e não encontraram o Zeca.

Nunca o Chico andou tanto de carro. Naquele dia não havia um uruguaianense que não tenha visto ele ser carregado pelos homens da lei. No dia seguinte, saiu uma pequena nota no jornal A Fronteira sobre uma bicicleta nova que foi roubada, pois, a manchete mesmo foi: “Camburão da polícia usado pela primeira vez”, e na foto em destaque, Chico ao lado do carro zero, desolado.

 

Comentários