O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

Mãe coruja

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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- Não, nono andar, não. Procure outro apartamento, no máximo, no segundo andar, de preferência no primeiro – gritava a mãe ao telefone.

O filho tentava argumentar que a vista da sacada era linda.

- Dá até para ver o campus daqui, mãe.

Ele nunca entendeu a neura da coroa com a altura. Lembrava-se da história que ela contava quando ele tinha uns cinco anos, que cada sacada tinha uma força centrífuga que puxava as crianças para a morte, que depois que a criança caísse ali, nunca mais poderia ver a mãe e, muito menos, ganhar presentes no natal. Ele lembra que fingia acreditar na estapafúrdia fábula da mãe apenas para deixá-la tranquila. Mas agora, ele tinha 18 anos, três meses e oito dias. Não era mais criança, repetia para si mesmo, enquanto ouvia as lamúrias da mãe ao celular. Agora ele precisava ser firme, mostrar que já era um homem.

- Véia, é esse apartamento que quero e pronto. A Aline está aqui e amou o lugar.

Ele afastou o celular do ouvido quando a mãe esbravejou:

- Então, guri, tu vai trocar a opinião da tua mãe, que te carregou 9 meses, que limpou os teus cagados, te de deu comida e roupa por causa de uma guria que tu conheceu há um mês? É assim que vai funcionar agora, Nicolas Almeida Escobar?

- Véia, não nóia. Não faz drama. E não começa, tá! Tu sabes bem que já namoro a Aline há mais de seis meses.

Ele ouviu o começar dos soluços, sabia que logo em seguida viria o choro.

- Mãe, não começa. – Repetiu, já amolecendo a voz.

A mulher sabia que o truque do choro sempre funcionava.

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