O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

Mais esperado que dia de penca no Plano Alto

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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- Encilha o zaino, guri, que tô largando pra vila – a voz rouca do velho interrompeu a brincadeira do menino com o cusco em frente ao casebre.

- Vai fazer o que no Plano, nego? – Indagou a mulher gorda, mexendo o feijão na panela de ferro sobre o fogão a lenha.

- Ontem, lá no bolicho o compadre me disse que é hoje que o professô Equiomá vai discursá – respondeu, já juntando um balde com água, tirada do poço logo mais cedo. – Separa a pilcha de domingo, nega, que vou tomá um banho.

Ao chegar no Plano Alto, o povo já estava aglomerado na praça em frente à estação de trem. No palanque, estavam todas as autoridades do lugar, o subprefeito, o padre, o brigadiano e alguns estancieiros, sorrindo de orelha a orelha. Os homens da região estavam impacientes, na expectativa para o próximo a discursar. O professor Equiomar era conhecido pelo palavreado rebuscado que usava em seus discursos inflamados. Era dele o dom de encantar as multidões e era tido como o político mais culto daquelas bandas, tinha até estudado na capital e fora ministro do doutor Getúlio.

Ouvir o letrado ao vivo era sempre o evento mais esperado na localidade. Todos os homens colocavam a melhor fatiota e se dirigiam ao palanque montado de véspera no centro da vila. Nem se comparava aos dias de penca. Era muito mais emocionante ouvir o homem ilustrado.

Ele havia chegado na noite anterior no vilarejo, como passageiro no trem de carreira, que concorria com a Hora do Brasil pela atenção dos moradores, ambos no mesmo horário. O trem vinha cortando os campos do Plano Alto, às vezes com passageiros, outras com oito vagões carregados de bois. Daquela vez, a composição parou na pequena estação para que o ilustre convidado pudesse desembarcar.

Equiomar era baixinho, vaidoso e penteava os poucos fios de cabelo de forma a disfarçar a calvície. Sempre de terno branco. A cartola servia para disfarçar sua altura. Cultiva o uso do monóculo, como um cacoete. Tudo perfazia a figura que construía no imaginário dos eleitores um homem da velha-guarda, abençoado por Deus e com o dom de ser seguido por outros homens. Tinha por hábito alisar o fino bigode e levar o queixo para frente, com certo ar de autoridade. Quando falava de si mesmo na terceira pessoa ele colocava os punhos na cintura.

Não importava se falava com um único interlocutor ou com uma plateia, sua voz sempre era empostada, marca registrada de sua personalidade egocêntrica. Defendia suas ideias apaixonadamente. Gostava, nas horas em que não estava lendo, de canha, carteado e afago das gurias de conduta duvidosa.

Quando ele subiu no palanque, reinou o silêncio. Só se ouvia um galo cantar a distância e alguns cachorros latirem.

- Solenes e imaculados cidadãos, aqui perfilados em esmerada imponência para me dar préstimos que não mereço, imputando em mim valorosas virtudes imerecidas. Aqui reunidos como num convescote para festejar nosso ágape, com grande desvelo, sinto-me na obrigação de curvar-me ante plateia tão distinta de homens circunspetos. Em nossos dias, reina o vil ocaso de prestígio da classe política de nosso país, que, por fortuito azo, faço parte. Minha presença, hoje, aqui tem por objetivo servir de arauto para evitar dias de contenda que virão. Com os desmandos assacados contra o pai do povo, urge que arregacemos as mangas e partamos à luta para recolocar o Dr. Getúlio ao posto de onde nunca deveria ter saído.  Homem crucial para repelir o flagelo sinuoso da inanição dos direitos do trabalhador, deve receber todo nosso apoio para lutar contra os escroques que tomaram o poder. Cabe-nos sustar a batelada de infâmias que estão difundido, sem o devido respaldo probatório. Devemos prestar comprovação eloquente de que o gaúcho Getúlio, se me permitem a intimidade, ouso afirmar, merece todo o nosso aval.

Foi aplaudido efusivamente por todos, enquanto uns soltavam sapucais, outros balançavam a cabeça em aprovação. Os mais exaltados davam tiros para o alto. No palanque, todos queriam apertar a mão do orador, e repetiam: “Esplêndido, esplêndido.”

- E aí nego, como foi o discurso do professô?

- Uma beleza, nega, uma beleza. Que homem inteligente. Tenho certeza que não existe ninguém igual a ele.

- E sobre o que ele falou, nego?

- Não entendi nada, mas que foi lindo, foi lindo.

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