O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

Nilton Santos

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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- Eu tenho três Gylmar, quer trocar? - gritou o Zeca.

O outro menino que passava correndo, descalço, calça branca arregaçada até o joelho, sem camisa, responde que não, mas que tem o Zózimo sobrando. O Zeca fez que não com a cabeça e seguiu sua caminhada. Carregava uma pilha de jornais do dia embaixo do braço. Usava boné, que ficava caindo sobre os olhos, macacão, que era uniforme, camiseta que um dia foi branca e uma sandália. Tinha saído a pouco da estação de trem e ia em direção à Praça do Barão, onde costumava vender seus exemplares do Correio do Povo, com notícias do dia anterior da capital do estado. Como de costume, o vigia da estação lia em voz alta as manchetes, que depois Zeca ia repetindo aos berros durante todo o trajeto. Ele conhecia as letras, mas não sabia encuerar, como dizia sua mãe, para explicar o analfabetismo do filho.

-Extra, Extra, Garrincha deu show para inglês ver, Extra, Extra, Garrincha deu show para inglês ver - gritava. Quando vendia um exemplar, sempre comentava a notícia. “Que pena o que aconteceu com o Pelé”, dizia, para puxar papo com o cliente, na expectativa de ganhar alguma moeda de gorjeta. Ele sabia que esse assunto sempre amolecia o coração dos conterrâneos. Depois que ganhava a moedinha extra, ele completava, “ainda bem que a seleção de ouro chegou na final”, e dava um sorriso, mostrando os dentes cariados.

Antes de vender todos os exemplares ele reserva um para o gerente da Casa Jacques, na Bento Martins. Dobrando a esquina, ele sempre parava para ver as novidades na Casas Pernambucanas, ele corria para o armazém do turco Patrício, na Domingos de Almeida. Com uma parte de seu soldo, escondido de seus pais, comprava um pacotinho de figurinhas e um bocado de torresmo. Ele comia a metade e a outra dava para o Matias, o cachorro mais brabo da redondeza. Já tinha deixado vários incautos sem a canela. O único que o cão se dava bem era com o Zeca.

Zeca tinha um ritual para toda vez que ia ao armazém, o turco conhecia e respeitava. Ele parava em frente ao balcão. Cuspia e esfregava bem as mãos. Fechava os olhos e escolhia um envelope de figurinhas entre dezenas que o turco colocava em cima da mesa. Só faltava para ele completar o álbum a figurinha do Nilton Santos. Todo dia sua esperança de completar seu álbum renascia. Já era uma obsessão. Depois de escolhido o envelope ele devolvia ao turco, que o abria com todo o cuidado. Zeca continuava com os olhos fechados, dedo indicador e médio trançados enquanto o turco lia em voz alta o nome dos três jogadores sorteados.

- Não foi dessa vez, mas não desista Zeca. – Patrício tentava consolar o menino. – Sabe quem tirou o Nilton Santos, ontem? O Ferrugem.

Foi uma decepção maior ainda. Logo o Ferrugem, pensou. Logo o guri que o odiava. Que já havia prometido lhe dar uns bofetes. Tudo porque ele chamou o guri de enferrujado.

Depois dessa notícia, saiu cabisbaixo do armazém.

Enquanto caminhava, começou a lembrar do que o locutor de rádio havia falado sobre o Nilton Santos. Que ele nunca desistia. Que era o maior lateral esquerdo da história. Foi pioneiro em avançar até a linha de fundo e marcar gols, que não ficava apenas na defesa e na cobertura. Que era conhecido como a enciclopédia do futebol, porque sabia todas as jogadas possíveis e tinha visão de jogo e, acima de tudo, tinha classe em campo. Um mito, um mito, ecoava a voz do narrador em sua jovem mente.

Se o Nilton era corajoso, ele também poderia ser. Então, decidiu que procuraria o Ferrugem e faria uma proposta irrecusável em troca da figurinha do Nilton Santos. Desceu a Duque de Caxias caminhando em passos largos e firmes até o porto. Ele sabia que o Ferrugem ganhava seus trocados carregando bolsas para os chibeiros.

Viu o Ferrugem sentado na beira do rio, com mais dois guris, jogando pedras na água barrenta do Uruguai. Conforme ia chegando, ele percebeu que o enferrujado se levantou e foi fechando os punhos. Ele prontamente retirou a camiseta e foi sacudindo no ar, em sinal de paz.

- Tu vai levar uma coça, pra aprende a respeita ozome - berrou o Ferrugem.

- Eu vim em paz e quero fazer uma proposta. Não quero brigar - respondeu o Zeca, louco de medo, pensando sobre a burrada que tinha feito, mas agora já estava ali e podia ser a oportunidade de fazer o seu gol, como o Nilton faria.

- Diga logo, antes que eu afunde teu nariz - disse o Ferrugem.

- Eu sei que tu tens a figurinha do Nilton Santos e quero comprar de ti - respondeu o Zeca, se fazendo de corajoso.

- Não quero vende.

- Então vamos fazer uma aposta.

- Que aposta?

- Vamos ver quem tem mais coragem.

- Feito - aceitou o Ferrugem, cuspindo no chão, ao que o Zeca passou o pé em cima, como sinal de concordância.

- Qual a aposta?

- Quem entrar no pátio do Matias e roubar três bergamotas ganha - propôs o Zeca.

- Aceito - confirmou prontamente o Ferrugem.

Naquele dia o Zeca completou o álbum e o Brasil conquistou o bicampeonato, mas agora já estava ali e podia ser a oportunidade de fazer o seu gol, como o Nilton faria.

- Diga logo, antes que eu afunde teu nariz - disse o Ferrugem.

- Eu sei que tu tens a figurinha do Nilton Santos e quero comprar de ti - respondeu o Zeca, se fazendo de corajoso.

- Não quero vende.

- Então vamos fazer uma aposta.

- Que aposta?

- Vamos ver quem tem mais coragem.

- Feito - aceitou o Ferrugem, cuspindo no chão, ao que o Zeca passou o pé em cima, como sinal de concordância.

- Qual a aposta?

- Quem entrar no pátio do Matias e roubar três bergamotas ganha - propôs o Zeca.

- Aceito - confirmou prontamente o Ferrugem.

Naquele dia o Zeca completou o álbum e o Brasil conquistou o bicampeonato. 

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