O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

O Punho de Pedra

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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Zááásss, Juvêncio chegou a sentir o cheiro do sebo da luva que passou rente ao seu bigode. Num movimento que treinava todos os dias no clube, se esquivou, desviando do gancho de direita que o Luis Ángel Pérez, El Intocable, desferiu. Essa foi quase, pensou, preciso me concentrar.

O problema do Juvêncio é que ao subir no ringue, de relance, viu que Antônia estava lá, na plateia, com o mesmo vestido branco que usara, quando bateu a porta na cara dele, gritando “fracassado”. A voz dela ecoou nítida e repentinamente em sua memória. Dois gritos agudos. Fracassaaaaadoooo. Fracassaaaaadoooo. Ele lembrou que correu para a porta com a intenção de implorar que ela não fizesse aquela loucura de trocá-lo pelo bacana do estancieiro Armando, mas foi em vão. Ela nunca mais deu notícias.

Sua atenção só voltou à luta quando o argentino conseguiu empurrá-lo ao corner. Ele levantou os punhos para proteger o rosto, enquanto o outro descarregava vários socos em seu abdômen. Erguia a direita para bloquear os golpes de esquerda, e a esquerda quando o soco vinha da direita, sempre protegendo o rosto.

- Dá um jab, dá um jab - gritava seu treinador, que não entendia porque ele estava tão distraído. Afinal, o combinado era ele cair apenas no quinto round. Não poderia ser no primeiro. Isso seria muito ruim para o dono da casa e para as apostas. Todos perceberiam que era armação. Ninguém poderia correr esse risco.

Juvêncio conseguiu dar um passo à esquerda e arrastar o pé direito, se desvencilhando do avanço do El Intocable. Num gingar de cintura, dá uma volta, e escapa das cordas do corner, saindo da posição perigosa. Aproveitou o mesmo movimento e segurou o pescoço do outro, que tonteou, por alguns segundos, e dá um clinch. Os dois boxeadores ficam se apoiando mutuamente sem trocar socos. O correntino fala baixinho no ouvido do Juvêncio: - ¿Que pasa hombre?

A multidão gritava eufórica.

– Dá-lhe, Punho de Pedra. Desmonta esse correntino! – bradava em coro o povo.

O gongo tocou. O juiz os separou. Cada um foi para seu canto sentar em um banquinho. Juvêncio só tentava ver novamente Antônia, pois não conseguia, homens enfurecidos gritavam em sua volta. Mata o castelhano, diziam. Ele nem ouvia seu treinador que falava em seu ouvido:

- Aguenta até o quinto. Aguenta até o quinto. Não esquece o combinado.

Ele, com a cara já inchada e um misto de suor e sangue, não conseguia tirar da mente os gritos de fracassado da Antônia, que agora voltava a sua vida, logo agora que já estava quase a esquecendo.

Um temor tomou conta dele. Ela o considerava um fracassado na vida. E agora, ali, naquele ringue, ela o veria fracassar novamente, no quinto round. Um sentimento de revolta e ódio começou a crescer em seu peito. Não posso deixar esse cangibrina me fazer de fracassado novamente. Então bolou um plano. Quando o gongo tocasse novamente, ele levantaria e iria direto na jugular do muchacho com seu famoso cruzado. Pronto, ninguém mais poderia chamá-lo de fracassado.

O gongo tocou, a multidão em catarse gritava ainda mais alto. Os banquinhos foram retirados do ringue. Quando o juiz desse o sinal, Juvêncio acabaria de vez com aquela voz aguda em sua mente.

O juiz baixou o braço. O Punho de Pedra foi decidido mais do que nunca em direção ao seu oponente. No segundo passo que deu, com o canto do olho, viu o vestido, que se destacou na multidão. Ele virou os olhos para ver melhor e, nessa fração de segundo, o argentino acerta o queixo do Juvêncio em cheio, num movimento de baixo para cima.

Ele só lembra do cheiro da lona do ringue ao beijá-lo e nada mais.

Foi o nocaute que se falou por meses nas casas de apostas, bares e cafés espalhados por Uruguaiana.

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