O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

O revisor

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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- Ou eu mato esse conto ou o contista - esbravejou Romualdo Oliveira.

Pegou o lápis 2B de cima da orelha direita, deu uma lambida na ponta, hábito que adquiriu quando criança, desenhou minuciosamente um xis sobre o sinal de crase do “a”.

- Este estrupício, metido a escritor, não aprendeu que “a”, neste caso, é um pronome oblíquo, razão por que não precisa de crase. E ainda se diz escritor - completou, limpando a saliva que cuspiu enquanto vociferava.

Para ele, encontrar um erro num escrito era um misto de prazer e ódio. Solteirão, 52 anos, desde os 20 esse era seu trabalho, revisor de uma editora de livros, mesmo assim, nunca se livrou do cacoete de amaldiçoar todos os autores que já tinham passado por sua mesa. O tempo de serviço e sua qualidade lhe deram o privilégio de trabalhar em casa. Ele só tinha uma exigência. Queria todos os originais impressos em folha A4, fonte com serifa, tamanho 12 e espaçamento duplo, bem como manda o figurino, neste caso a ABNT. Tinha que ser em papel, porque ele abominava computador. Outro hábito era falar sozinho ou com os oito gatos gordos e preguiçosos que se esparramavam deitados sobre as pilhas de livros largados pelo chão da sala. Os felinos já tinham se acostumado com o espernear que precedia cada erro encontrado pelo seu dono. Eles não se importavam mais.

- Quantas vezes já falei para esse banzé que não se separa ditongos em finais de linha, que o ditongo não permite separação! E esse “porquê”, junto e com acento só se vier antecedido de artigo ou pronome, apesar de que essa descrição da personagem ficou primorosa.

Trechos que ele gostava o lia em voz alta e olhava por cima dos óculos para seus interlocutores, esperando uma concordância, o que envolvia apenas um movimento de rabos como resposta.

- “Ádria quando passava deixava um rastro de Chanel Nº5. Ela não precisava pedir, os passantes abriam caminho. Não se ouvia som nenhum vindo de seus saltos, a graça com que colocava um pé à frente do outro lembrava os passos de uma bailarina”. O que vocês acharam? Seria uma ótima mãe para vocês, né? – perguntava aos gatos, e esperava a resposta com atenção. Um que outro se dava ao trabalho de miar.

Voltava a enfiar o nariz no texto e mais uma esbraveada.

- Ele não aprendeu ainda que o pronome relativo sempre atrai o obliquo para antes do verbo?

Dá-lhe anotações com o lápis. Risca um xis. Faz um círculos. Puxa uma linha até a margem e escrevia sempre em caixa alta, uma observação ácida sobre o erro encontrado: “O PERÍODO NÃO DEVE COMEÇAR POR CONJUNÇÃO OU POR PRONOME RELATIVO!!! JÁ FALEI SOBRE ISSO!!! MAIS ATENÇÃO, POR FAVOR!!!”.

Tinha a mania de acrescentar sempre três exclamações no final de cada recomendação.

Em outra nota pediu: “TROCAR A PALAVRA ‘GRAÇAS AO’ POR ‘DEVIDO’. ‘GRAÇAS AO’ SÓ SE REFERE A COISAS BOAS, ‘DEVIDO” SE USA QUANDO HOUVER CONTRATEMPOS, DIFICULDADES.  O CORRETO É ‘DEVIDO AO CORAÇÃO QUE ELA DESPEDAÇOU’!!! MAIS ATENÇÃO, POR FAVOR!!!

Virou a página e mais um risco até a margem. “COLOCAR UMA VÍRGULA DEPOIS DE ‘O TIRO ACERTOU O CORAÇÃO DELA”!!!

- Pelo menos uma vez esse asno, deu um final feliz para sua protagonista. Não concordam comigo? – olhando por cima dos óculos esperou uma resposta.

Colocou o manuscrito no envelope timbrado da editora, selou e apenas anotou: ÓTIMO TEXTO. PUBLICAR!!!, E juntou aos outros envelopes sobre a escrivaninha de jacarandá.

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