O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

O último dos farrapos

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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A escuridão, o frio e a sonolência o fez se perder dos companheiros em fuga. Barba longa e suja, a pilcha um farrapo. Exausto, depois de dias de caminhada, encontrou uma clareira entre um mato de espinilho. Era um bom lugar para descansar e se esconder, afinal só tinha à frente um campo limpo, e era perigoso demais seguir sem o sol para lhe mostrar o caminho.

Acordou com uma ameaça de feixe solar no rosto. Encontrava-se enregelado. Seu poncho competia com o pasto à frente para ver quem tinha mais geada. Quando exalava, uma leve fumaça brotava de suas narinas. O estômago roncava levemente, mas essa era a menor das preocupações. Não conseguia mover os dedos, por causa do frio. Ele sabia que ainda tinha um longo caminho até se sentir seguro. Sentia muita falta do chimarrão e do fogo de chão para se aquecer. Naquele momento, lhe passou pela cabeça que o melhor cheiro que poderia existir na vida era do café de tição.

A neblina começava a desvanecer quando ele ouviu ao longe, o relinchar de cavalos. Só podiam ser os caramurus, a tropa do governo imperial. Agora o que estava álgido também era suas entranhas. A boca secou e a garganta se fechou como que tentando abafar qualquer ruído que pudesse deixar escapar e denunciar seu esconderijo.

Apesar do frio sabia que sua testa suava. Sentiu os pelos da nuca arrepiarem. Estava ciente que se corresse não teria chance, eram muitos e estavam a cavalo. Além do que, ele estava bem fraco, há dias não fazia uma refeição decente. Estava vivendo de butiá, araçá, pitangas, guabirus e um capincho, que Deus colocou em seu caminho.

Ficou imóvel, suplicando aos céus que o protegesse. Não era justo morrer com vinte anos, pensava. Sentiu a lágrima que corria até seus lábios. Começou a lembrar das rixas que teve com seu pai quando comunicou que iria apoiar Bento Gonçalves. Seu velho não aceitava o desvario e dizia que essa luta era sem fundamento. Que os guris, como ele, eram fáceis de assustar e de entusiasmar. Que o homem foi feito por Deus para cuidar dos bichos e proteger a família e não para ir lutar em uma guerra que os estancieiros criaram a fim de ficarem mais ricos do que já eram.

O velho era ignorante demais para ele argumentar o que estava envolvido na guerra. Que se tratava do futuro dos gaúchos. Que dali poderia nascer o ideal republicano: que o bem comum deveria estar acima dos interesses particulares e dos estancieiros. Que seu desejo de pegar em armas era uma decisão cívica, que deveria como dizia o General Neto, “por tudo que lhes é mais caro, a supremacia do interesse do povo deveria ter a primazia sobre todos os outros interesses”.

Ali, escondido e naquela situação, por um instante pensou que seu pai tinha razão. Recordou sua mãe e suas irmãs. A vida tranquila e pacata que teve e o prazer que eram as lidas de campo. Dos banhos na sanga e do cheiro do feijão cozido que a mãe fazia. Do cão companheiro e do cavalo que morreu em batalha. Aquilo tudo parecia tão distante, como se pertencesse a uma outra vida, não a dele. Deixou soltar um suspiro e um início de choro.

Aquelas memórias haviam sido afogadas nas imagens de muito sangue e nas expressões de horror nos olhos dos outros jovens, iguais a ele, que havia matado nos campos de batalhas.

Foi então que veio à mente tudo que ouvira dos companheiros de armas: que no sangue gaúcho corre a valentia. Que gaúcho de verdade é homem de fibra e têm culhões. Aos poucos foi crescendo em seu interior uma coragem nunca antes experimentada. Levantou-se. Alinhou o lenço no pescoço. Ajeitou o chiripá. Apertou a guaiaca. Tirou a espada da cintura. Tapeou a aba do chapéu. Olhou em direção ao sol. Agradeceu a vida e falou em voz alta que estava pronto para partir. Estufou o peito. Ergueu o queixo, e caminhou desafiadoramente até o campo aberto.

Se vou morrer que seja como homem, ia pensado. Fincou os pés no chão, como se fossem dois mourões e estacou-se. Quem visse de longe poderia pensar que se tratava de um general liderando um exército. Levantou o chapéu com uma mão e com a outra estendeu a espada em direção ao sol que provocou reflexos, como raios em tempo de tempestade. Soltou um sapucay com todas as suas forças restantes:

- Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaiaiaiaiaiaiairurururururruaaaa

A tropa inimiga, que ainda estava apeada, se alvoroçou. Em questão de segundos, os soldados já estavam prontos, montados em seus cavalos, só esperando a ordem do jovem tenente. Era uma tropa de reconhecimento. Uns homens tão jovens quanto o líder deles.

A imagem daquele separatista solito, no meio do campo surpreendeu a todos. O tenente hesitou e depois de pensar por um instante gritou para os subordinados.

- Nenhum farrapo seria louco para andar sozinho por essas bandas. É uma armadilha. Vamos voltar ao acampamento!

 

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