O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

Ramona, a doméstica

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

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Valentina, apesar da grande diferença de idade entre as duas, gostava mesmo era de conversar com a Ramona, a doméstica que também fez papel de babá, já que a criara, pois seus pais, bem sucedidos empresários, passavam mais tempo no trabalho e viajando do que em casa. Nunca vira a criada se queixar da vida. Pelo contrário, a cada final de frase ela repetia um graças à Deus. Toda vez que Valentina reclamava da ausência da mãe, Ramona a mandava bater três vezes na boca e agradecer a Deus que seus pais lhe davam casa, comida, roupa e educação. Que de onde ela vinha, isso tudo era privilégio de poucos. E que, como viúva e bisneta de escravos, só teria que agradecer por tudo que tinha.

Valentina era diferente das outras meninas de sua idade. Sua vida era preenchida pelos estudos, leitura de livros, brincadeiras com o gato melado e sua maior aventura eram as idas à biblioteca.

Ramona só saia de casa uma vez por dia para levar o terrier tibetano preto a passear. A ordem era levar o cachorrinho religiosamente todos os dias, às nove horas, e era imprescindível usar uniforme, pois os vizinhos do condomínio de luxo exigiam.

A janela de segundo andar do quarto de Valentina dava para o pátio dos fundos. Ela gostava de ver dali o pôr do sol, o jacarandá, morada de muitos passarinhos e as mansões dos vizinhos. Ao lado da árvore frondosa, ficava uma pequena casa. Era a morada da Ramona. Olhando atentamente para aquela casinha branca, Valentina percebeu que nunca tinha entrado ali. Que nunca tinha perguntado sobre a vida de sua companheira de conversa. E que nunca ficou sabendo como o marido da Ramona havia morrido. Só sabia que fora há 30 anos.

Valentina se perdeu em seus pensamentos, debruçada na janela. O frescor daquela noite de verão estava tão agradável como um acariciar em seu rosto. Pensava que o carinho de um príncipe deveria ser como aquela brisa e que, com certeza, deveria existir um guri sensível com quem poderia trocar confidências e declarações de amor eterno. Sua divagação foi interrompida pelo barulho da porta da casa da Ramona se abrindo. Mas o que lhe surpreendeu era como Ramona estava vestida. Ela nunca tinha visto sua babá daquele jeito. Não controlou o queixo que deixou cair.

A doméstica não era a mesma pessoa. Usava um salto robusto, vermelho escarlate. A meia de renda preta contrastava com o gliter do sapato, que refletia a luz, fazendo a mulher brilhar. O vestido preto ia colado junto ao corpo, que com ajuda de uma cinta modeladora acentuava o quadril avantajado, característico de mulheres negras. Para dar movimento esperado às pernas, Ramona havia aumentado a abertura no vestido no lado direito, que quando caminhava mostrava a celulite da coxa. O decote promovia os seios fartos, que parecia querer se jogar ao mundo. A luva preta cobria todo o antebraço. Usava um bolero de lã, bege, que um dia foi branco. No chapéu casquete o bowknot prendia sobre a copa o véu negro que escondia metade do rosto, criando certo mistério. O batom vermelho acentuava a cor marrom do rosto enrugado. Os brincos representavam alguma deidade africana.

O gingado com que a mulata ia saindo, àquela hora da noite, fez com que Valentina congelasse. Ficou apenas observando, imóvel em sua janela, a mulher caminhar dona de si, quando some pelo corredor ao lado da casa que dava para frente. Depois de alguns segundos, Valentina, sai do quarto correndo, desce as escadas e vai até a janela da frente. Afasta a cortina e só consegue ver Ramona entrando em um táxi. No movimento para se acomodar no veículo, antes de bater à porta, a criada deixou à mostra a ponta da cinta-liga. O carro parte.

Só veio um pensamento à Valentina: que lindo aquele scarpin!

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