O Último dos Farrapos e outros contos curtos
de Cezar Brites

Tempo esquecido

Cezar Brites      segunda-feira, 20 de abril de 2020

Compartilhe esta página com seus amigos

- Enquanto não chegar, não desisto. Tenho que vê-la antes de partir.

Era o pensamento que martelava na cabeça do Joaquim.

- Maldita estrada. Se não fosse pela 4x4..., resmungava.

A cada quilômetro que percorria mais aumentava a solidão. Ele ligou o rádio, mas só escutou ruído.

- Não posso desistir, já vim até aqui – repetia para si mesmo.

Lembrava bem que era depois do açude do velho coronel Anastácio, logo em seguida vinha a curva e mais alguns metros daria para ver. Não sabia se a encontraria, era provável que nem existisse mais. Mas, era preciso. Ele precisava encontrar seu passado. Tudo começou lá e tudo deveria terminar lá.

Parou a camionete, o coração bateu mais acelerado.

- Acho que consigo ver o telhado de capim santa-fé daqui – falou baixinho.

Desceu desconfiado. Pulou uma cerca de pedra. Parou por alguns instantes. Ouviu um grito de quero-quero ao longe, sentiu calafrio, como um prenúncio de algo ruim. Seus pelos da nuca arrepiaram. Uma brisa que previa o outono soprou no seu rosto. Sentiu a barba balançar. Um silêncio pesado dominou seus pensamentos. Sabia que estava abrindo uma porta ao passado que não teria volta. Foi se aproximando devagarinho.

Pela distância dava para vê-la. Estava inclinada. Pensou que era o peso do tempo. Poucas tábuas sobraram. Só não caiu por completo, porque estava escorada em um angico. Aquele lugar nada lembrava o que fora outrora. O cheiro, ah, o cheiro, continuava o mesmo. Era o cheiro do verde. Cheiro do tempo esquecido. Cheiro que despertou as memórias que insistiam em aparecer de relance.

Até aquele exato instante as imagens do seu passado vinham remendadas e fugidias. Agora ele ia maneá-las. Dito e feito. Parece que um botão foi ligado no seu cérebro e ele disparou, que nem o baio em cancha reta.

Recordou tudo! A euforia durou segundos, pois logo lembrou o que deveria ter esquecido. Agora entendia porque sua memória insistia em lhe pregar uma peça. Entendeu porque no fundo do seu coração algo lhe dizia que não deveria ter voltado àquele lugar. A sua inquietação lhe traiu. Não podia mais dar volta. Reviveu o que deveria ter olvidado. Sentiu como que uma facada no meio do peito. Respirar ficou difícil. Suas pernas perderam as forças. Só lhe restou cair de joelhos e chorar.

Foi ali, naquela tapera, que sua mãe tinha morrido, assassinada pelo homem que ela amava, seu próprio pai, num acesso de ciúmes, quando ele ainda era criança. Assistiu tudo, sem entender na época, o que acontecera.

Comentários